Quarta-feira, 11 de Novembro de 2009

SERVIDÃO HUMANA – PRIMEIROS CAPÍTULOS

 

 

O dia raiou cinzento e tristonho. As nuvens adensavam-se, carregadas, e pairava no ar um frio agreste, prenúncio de neve. Uma criada entrou num quarto onde dormia uma criança e correu as cortinas. Olhou mecanicamente para a casa em frente, de estuque branco com um pórtico, e abeirou-se da cama.

– Vamos, Philip, acorde – disse ela.

Puxando os cobertores para trás, pegou-lhe ao colo e desceu as escadas com o menino ainda semiadormecido.

– A sua mãe quer vê-lo.

Abriu a porta de um quarto no andar de baixo e levou-o até uma cama onde estava deitada uma mulher. A mãe dele. A mulher estendeu os braços e o menino aconchegou-se ao seu lado sem perguntar porque tinham ido acordá-lo. A mulher beijou-lhe os olhos; com mãos magras e delicadas, sentiu-lhe o calor do corpo através da camisa de dormir de flanela branca e apertou-o mais contra si.

– Estás com soninho, meu querido? – perguntou ela.

A voz era tão débil que parecia vir de muito longe. O menino não respondeu, mas sorriu feliz. Era tão bom estar na cama grande e quente, com aqueles braços macios a aconchegá-lo. Tentando fazer-se ainda mais pequenino, aninhado ao lado da mãe, deu-lhe um beijo ensonado e, num instante, fechou os olhos e adormeceu profundamente. O médico aproximou-se e parou junto da cama.

– Oh, não o leve ainda – pediu a mulher num gemido.

Sem responder, o médico fitou-a muito sério. Sabendo que não iam deixá-la ficar com o menino por muito mais tempo, a mulher beijou-o novamente e, com a mão, acariciou-lhe o corpinho até aos pés; em seguida agarrou-lhe o pé direito, acariciou os cinco dedinhos e, lentamente, fez-lhe uma festa no pé esquerdo. Depois soltou um suspiro.

– O que foi? – disse o médico. – Sente-se cansada?

Ela abanou a cabeça, sem conseguir falar, e as lágrimas rolaram-lhe pelas faces. O médico inclinou-se sobre ela.

– Deixe-me levá-lo.

Demasiado fraca para resistir, ela deu-lhe o menino e o médico entregou-o por sua vez à ama.

– É melhor ir deitá-lo outra vez na cama dele.

– Sim, senhor doutor.

A criança foi levada, ainda adormecida, deixando a mãe a soluçar, inconsolável.

– O que vai ser dele, pobrezinho?

A enfermeira tentou acalmá-la e, por fim, o choro cedeu à exaustão. O médico aproximou-se de uma mesa, do outro lado do quarto, onde, debaixo de uma toalha, jazia o corpo de um nado-morto. Levantou a toalha e olhou para ele. Estava escondido da cama por um biombo, mas a mulher percebeu o que ele estava a fazer.

– Era menina ou menino? – perguntou ela baixinho à enfermeira.

– Outro menino.

A mulher não respondeu. Pouco depois a ama voltou a entrar no quarto e aproximou-se da cama.

– O menino Philip não acordou – disse ela.

Houve uma pausa e depois o médico tomou novamente o pulso à paciente.

– Penso que por agora não há mais nada que eu possa fazer – disse ele. – Volto depois do pequeno-almoço.

– Eu acompanho-o à porta, senhor doutor – disse a ama.

Desceram as escadas em silêncio. Ao chegar ao vestíbulo o médico parou.

– Mandou chamar o cunhado de Mrs. Carey, não é verdade?

– Sim, senhor doutor.

– Sabe a que horas chega?

– Não, senhor, estou à espera de um telegrama.

– E o pequeno? Acho melhor que não esteja por aqui.

– Miss Watkin disse que o levava.

– Quem?

– A madrinha dele. O senhor doutor acha que Mrs. Carey vai recuperar?

O médico abanou a cabeça.


Podem fazer o download dos primeiros capítulos de Servidão Humana, de Somerset Maugham, aqui.

publicado por Miguel Seara às 17:01

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