Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

A CRÍTICA DO PÚBLICO A SERVIDÃO HUMANA, DE SOMERSET MAUGHAM

 

 

Maugham quis escrever um romance filosófico que desse conta não só da sua experiência desde a infância mas também do seu percurso como pensador.


Somerset Maugham
começou a escrever Servidão Humana aos 37 anos como uma espécie de catarse para as suas múltiplas angústias e traumas. O romance, cujo título foi retirado da Ética de Espinosa, surgiu em 1915, depois de quatro anos de trabalho árduo. É uma típica história de aprendizagem iniciática e surgiu numa altura em que os Bildungsroman conheciam um enorme sucesso com autores como Samuel Butler, Arnold Bennett, H.G. Wells, D. H. Lawrence e James Joyce, de tal forma que os críticos de então afirmavam com ironia que não havia escritor que se prezasse que não começasse por contar a sua vida, mais ou menos disfarçada numa trama ficcional.

 

Maugham cria a personagem de Philip, relatando – com pormenores por vezes demasiado enfáticos – o seu longo caminho da realização pessoal, as tentativas para escapar a uma existência burguesa, acomodada e sem sentido e, mais tarde, a uma relação sórdida e condenada. Philip, à semelhança de Maugham, é um órfão entregue a guardiões mais velhos, estranhos e severos, num ambiente desconhecido e hostil. A primeira parte do livro é dedicada à vida em Blackstable – Maugham viveu em Whitestable – e na escola em Tercanbury – a de Maugham era a King's School em Canterbury – sendo descrito com minúcia o ambiente vitoriano e dickensiano da casa e da escola, com as habituais cenas de bullying – o ponto fraco de Philip é um pé boto, a de Maugham era a gaguez – a mediocridade da maior parte dos professores – ignorantes, preguiçosos, insensíveis, estúpidos –, o tédio da rotina escolar, o sentido de injustiça e a lenta descoberta da identidade.

 

Depois de ser tentado no sentido de ser ordenado sacerdote por um novo reitor que lhe reconhece as aptidões excepcionais, Philip escapa-se a um futuro que encara como limitado e desadequado às suas ambições e parte para a Alemanha, onde, em Heidelberg, inicia a sua vida de rapaz independente. É aí que conhece as primeiras raparigas e forma as primeiras amizades, discute Religião, Filosofia e Literatura e entra em contacto com a obra de Goethe, Verlaine e Flaubert, bem como com o teatro de Ibsen que, tal como a música de Wagner, eram considerados como demasiado modernos e terrivelmente blasfemos. É ainda em Heidelberg que um dos seus conhecidos lhe dá a ler A Vida de Jesus, de Joseph Ernest Renan – o livro que revolucionou o cristianismo no século XIX por contar a vida de Cristo na qualidade de ser humano – que o leva pelo caminho do agnosticismo, como aconteceu com Maugham. Convém lembrar que Philip é um produto perfeito da sua época. A vida “artística” em Paris, o exercício diletante de Medicina, a vagabundagem, a sedução de mulheres mais velhas, as discussões filosóficas e a atracção pelo abismo moral e sentimental que, aqui, é representado pela relação com Mildred Rogers, a criada cockney, feia, grosseira e ignorante que o explora, rebaixa e humilha, reflectem uma tendência para explorar uma sociedade convulsa e caótica onde artistas como Gauguin e Van Gogh aliavam o cúmulo da genialidade a uma existência de pobreza sórdida e aberrante.

 

Francis King, um escritor amigo de Maugham, fez uma ligação entre a deformidade de Philip e a homossexualidade do escritor que, já entrado em anos, confessou a um sobrinho que “tinha passado a vida a convencer-se que era três quartos heterossexual e apenas um quarto gay, quando, afinal, era exactamente o contrário”. A criação da figura de Mildred – andrógina, sem peito, magra, destituída de atractivos femininos, tanto físicos como morais – poderia, de acordo com alguns críticos, corresponder a uma necessidade de exorcizar uma relação secreta que Maugham teria mantido durante o tempo em que praticou medicina nos bairros pobres de Londres.

 

Embora a história de Servidão Humana seja principalmente conhecida pela relação masoquista entre Philip e Mildred – o centro da atenção das adaptações cinematográficas –, a verdade é que Maugham quis escrever um romance filosófico que desse conta não só da sua própria experiência desde a infância mas também do seu percurso como pensador. É principalmente neste livro – e mais tarde em O Fio da Navalha – que revela a intenção de mostrar os perigos do chamado "conhecimento sensível" – a imaginatio de Espinosa – cujas limitações desencadeiam a desordem dos sentimentos, o sofrimento e a paixão. Maugham tinha dificuldade em aceitar a ideia de um estado intuitivo, místico que levasse à felicidade e virtude supremas, as quais, em Servidão Humana, se consubstanciam na figura de Sally, personagem pouco determinante para alterar o rumo dos acontecimentos. Fortemente influenciado por Maupassant, Zola e Flaubert, Maugham quis lançar um alerta para todos aqueles que se deixam enredar pela armadilha de uma visão romântica da existência, baseando-se nas palavras de Espinosa: “Chamo servidão à impotência do ser humano para governar ou restringir (as suas) emoções”. Para ele, que lutou sempre para se libertar dos constrangimentos da lei e da moral, a perfeita epifania seria a que lhe revelasse o sentido da vida, por muito modesto que fosse, como esconjuro contra a inconsequência da morte.

 

Crítica Servidão Humana, Somerset Maugham, da autoria de Helena Vasconcelos, publicada no suplemento Ípsilon, do Público, no dia 24 de Dezembro de 2009.

 

publicado por Miguel Seara às 14:42

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