Quarta-feira, 30 de Dezembro de 2009

“POBRE VELHO WILLIE” – SOMERSET MAUGHAM EM DESTAQUE NO PÚBLICO

 

 

Uma nova biografia e uma série de reedições alimentam o revivalismo em torno do homem que em tempos foi “o melhor escritor de segunda categoria”. A ASA lança Servidão Humana. Volta, William Somerset Maugham, estás perdoado.

 

“Não acalento ilusões no que diz respeito à minha posição no universo literário e não albergo ressentimentos em relação a certos críticos brilhantes que escrevem sobre literatura contemporânea e nunca se lembram de mim”, declarou William Somerset Maugham nos anos 20. Por essa altura, já era famoso e parecia ter esquecido que, desde o início da sua carreira, nos primórdios do século XX, lograra o aplauso de sumidades como Virginia Woolf, Elizabeth Bowen, Theodore Dreiser – que muito contribuiu para o sucesso de Servidão Humana –, Rebecca West e Evelyn Waugh, entre outros. O que parecia incomodar o escritor era o facto de a crítica se tornar cada vez mais evasiva à medida que enriquecia, que as suas peças enchiam os teatros e que os seus livros esgotavam edições. Frases como “o melhor escritor de segunda categoria” ou “um contador de histórias eficaz” estigmatizavam a obra de um autor que, para muitos, tratava temas profundos – a angústia existencial, a busca da liberdade, a atracção erótica e o apelo do exotismo – com leviandade e rigidez.

 

Num artigo publicado no Atlantic em 2004, Poor Old Willie, Christopher Hitchens enunciou sem piedade os clichés na obra de Maugham e relembrou a opinião de Edmund Wilson, que considerava o famoso O Fio da Navalha um amontoado de banalidades. Apesar de tudo, neste final de década do século XXI a obra de Maugham conhece um revivalismo marcante – em Portugal está a ser reeditada pela ASA, que acaba de lançar Servidão Humana e fará chegar às livrarias em 2010 O Fio da Navalha, principalmente depois da adaptação para o cinema de O Véu Pintado (2006) e da publicação de The Secret Lives of Somerset Maugham, a biografia de Selina Hastings, já considerada pelo The Times como a melhor deste ano. Foi também importante a referência directa de V. S. Naipaul em Half a Life (2001), onde começa por contar a história do feliz encontro entre um homem santo da Índia e um escritor, baseando-se na experiência de um Maugham que, nos seus últimos anos, desenvolveu um interesse especial pela espiritualidade oriental, bem explícita em O Fio da Navalha, o romance que influenciou legiões de hippies e adeptos de filosofias New Age.

 

 

Os anos loucos

William Somerset Maugham nasceu em 1874, na Embaixada Britânica em Paris, filho de um advogado inglês e de uma beldade, Edith Mary Snell. Os seus primeiros anos foram felizes e desafogados (as amas levavam-no a brincar nos Campos Elísios), mas Edith tinha tuberculose, uma doença que os médicos acreditavam poder remediar com a gravidez. Maugham foi a quarta criança a nascer – estando os outros três rapazes já “arrumados” em colégios internos em Inglaterra – e foi criado com os mimos reservados a um filho único. A felicidade acabou quando, em Janeiro de 1892, poucos dias depois do seu oitavo aniversário, a adorada mãe de Maugham morreu, seguindo-se-lhe o pai, dois anos depois. O choque fez com que se fechasse sobre si próprio, se entregasse à leitura e desenvolvesse uma gaguez pronunciada, características que se acentuaram quando foi enviado para Inglaterra e ficou a cargo de um tio, o vigário MacDonald Maugham, um homem frio e cruel que o sobrinho odiou ferozmente para o resto da vida.

 

Destinado a seguir Direito, como era tradição da família, optou por Medicina num acto de rebeldia, o que o colocou em contacto com os bairros pobres de Londres, que lhe forneceram material para os seus primeiros escritos. Mas, tal como George du Maurier antes dele, a sua fama estabeleceu-se a partir da escrita para o teatro, principalmente depois de Lady Frederick, em 1907, cujo sucesso lhe deu acesso à alta sociedade e a grandes quantidades de dinheiro que utilizou prontamente para começar a sua vida de viajante insaciável (por alturas dos seus 16 anos, afirma Selina Hastings, era já “altamente sexualizado”). Depois de terminar o curso de Medicina em 1897, e tendo enveredado pela carreira de escritor, embarcou numa rotina de jovem solteiro sem cuidados, acumulando uma longa lista de amantes de ambos os sexos enquanto percorria a Espanha, a Itália e a França e a sua posição se consolidava nos círculos literários.

 

Em 1913, Syrie Wellcome, mulher viva e espirituosa que se tornou uma referência como decoradora de interiores com os seus ambientes brancos, entrou na sua vida e o casamento aconteceu quatro anos depois (a filha do casal, Liza, descobriu anos mais tarde que a mãe já estava grávida quando casaram, o que confirma a tese de que William teria “caído numa armadilha”). O enlace rapidamente se tornou um pesadelo e Maugham foi praticamente “salvo” pelo deflagrar da Grande Guerra. Alistou-se como voluntário (tinha 40 anos) e, em França, conheceu Gerald Haxton, um americano de 22 anos que se tornou o amor da sua vida e companheiro de muitos anos. Por essa altura já trabalhava para o MI5 e fora despachado para a Samoa ocidental, uma viagem que consolidou o seu gosto por culturas do Pacífico, palco de muitas histórias (Chuva é, talvez, a mais famosa) e romances (Um Gosto e Seis Vinténs, o relato ficcionado da vida de Gauguin).

 

Demasiado sociável e simultaneamente tímido, não era um espião notável. No entanto, e apesar do tremendo falhanço das suas diligências na Rússia, durante a Revolução, continuou a sua aventurosa experiência no mundo dos serviços secretos – quando vinha a Portugal ficava na York House, um lugar que sempre agradou a espiões como Graham Greene, Kim Philby e Le Carré –, enquanto a relação com Syrie se deteriorava e o escritor só encontrava consolo nas suas exóticas viagens com Haxton. Cada vez mais rico e famoso, foi obviamente chamado a Hollywood, onde conheceu Chaplin e muitas outras celebridades que afluíam à grande casa que comprara entretanto no Sul de França, a Villa Mauresque. Em 1929 divorciou-se e conheceu Alan Searle, que anos mais tarde substituiria Haxton e o acompanharia até ao fim da vida. Ao longo das loucas décadas de 20 e 30, manteve uma existência de grande luxo: escrevia de manhã e passava as tardes a jogar golfe, a nadar e a seduzir rapazes. Recebia muitos hóspedes – dos quais se queixava depois –, frequentava as termas e os casinos, jantava e participava em festas com as pessoas mais importantes do planeta, num ambiente que Scott Fitzgerald imortalizou nos seus contos e romances. Viajava constantemente e, em Londres, era disputado pelos “salões” das duas grandes rivais Sybil Colefax e Emerald Cunard, que lutavam para conseguir juntar o maior número possível de escritores, filósofos, artistas e cientistas sob os seus tectos sumptuosos.

 

Quando rebentou a II Guerra, Maugham fechou a Villa Mauresque e partiu para os EUA onde, a 25 de Janeiro de 1944, celebrou sozinho o seu aniversário (era o 70.º). Ted Morgan, na biografia do escritor, conta como ele dedicou o dia a recapitular o passado e a escrever as suas conclusões. Achava que as pessoas de idade perdiam parte da sua humanidade e ele sentia-se desenraizado na América e perpetuamente vagabundo, sem uma pátria que pudesse chamar sua. Quando Haxton morreu nesse ano, Maugham chamou Alan Searle para ocupar o seu lugar e voltou para França, onde acabou por morrer em 1965.

 

Maugham Vs. Nabokov

Ao contrário de Nabokov, que continua a ser considerado um autor excepcional, lido e comentado não só pela sua ficção, mas também pela sua obra ensaística, Maugham é encarado como um escritor “popular” que – dizem os menos piedosos – viveu demasiado tempo e escreveu de mais. No entanto, é interessante recordar os factos que aproximam estes dois homens tão diferentes, principalmente no que diz respeito a preferências sexuais: ambos tiveram uma infância maravilhosa e próspera, interrompida abruptamente por acontecimentos trágicos; ambos foram extremamente cosmopolitas e grandes leitores; ambos viveram nos EUA enquanto a Europa se mantinha a ferro e fogo; e, principalmente, ambos encararam com verdadeira fobia a ideia de alguém escrever sobre as suas vidas, empenhando-se em baralhar pistas, inventar factos e fazer passar por ficção histórias bem reais.

 

Maugham pediu várias vezes a amigos e conhecidos que as suas cartas fossem destruídas e ele próprio – com a ajuda de Alan Searle – queimou muitas das que lhe foram dirigiras, incluindo algumas de correspondentes famosos como Winston Churchill. O próprio Searle começou a ficar preocupado com o zelo com que o escritor se dedicou à destruição maciça de originais e manuscritos preciosos. Não deixa de ser irónico o facto de Maugham, que foi sempre um observador compulsivo dos detalhes das vidas dos outros, se desse a tanto trabalho para encobrir pistas sobre a sua personalidade. Na verdade, o narcisismo não lhe permitia suportar uma outra imagem de si próprio que não fosse a de um homem requintado, culto, generoso e bonacheirão, e todos aqueles que se propuseram escrever qualquer relato biográfico enquanto estava vivo viram-se confrontados com uma feroz oposição. Um deles, o seu amigo S. N. Behram, declarou em 1963: “Toda esta história é uma das mais bizarras, grotescas, fantásticas e, em alguns aspectos, hilariantes situações de que tenho conhecimento. Se pudesse contar tudo o que sei, seria um relato e tanto! Mas é claro que não posso fazê-lo enquanto esta vetusta e complicada criatura não desaparecer”.

 

O mais curioso é que a melhor fonte de informações sobre Maugham foi o próprio. Para além dos dois relatos autobiográficos que deixou, The Summing Up e Strictly Personal – que é possível colocar a par de Speak Memory de Nabokov – compilou as notas que mantinha desde os 18 anos em A Writer’s Notebook e intercalou hábeis fragmentos autobiográficos em prefácios dos seus variados escritos. À boa maneira de Hitchcock, também tratou de “aparecer” nos seus romances, tanto no papel de narrador como no de personagem actuante, como acontece em O Fio da Navalha, tendo ainda criado um alter ego, um tal Ashenden que surge em contos relacionados com o seu trabalho como espião. O facto de ser ele a falar de si próprio mantinha-o em controlo e, tal como Nabokov, seguia o método de Edgar Allan Poe em A Carta Roubada: quanto mais óbvio e mais à vista estiver um segredo, melhor ele será guardado.

 

Da servidão à liberdade

A existência de Maugham foi paralela ao século XX: assistiu a duas Guerras Mundiais, à Grande Depressão, ao fim do Império Britânico, à Revolução Russa e até à revolução sexual. Os seus 91 anos de vida permitiram-lhe ser contemporâneo de várias gerações de escritores. Quando publicou Liza, a Pecadora, em 1897, os seus contemporâneos eram Thomas Hardy, Kipling, Conrad e H. G. Wells; quando foi a vez de Servidão Humana, em 1915, os seus pares eram James Joyce, D. H. Lawrence e Virginia Woolf; à época de Cakes and Ale, em 1930, Graham Greene, Evelyn Waugh, Fitzgerald, Hemingway e Faulkner faziam furor; no ano em que saiu O Fio da Navalha, 1943, o tempo era já de Norman Mailer e Irwin Shaw; e por alturas da sua última obra, Purely for My Pleasure, em 1962, o mundo literário era dominado por J. D. Salinger e John Updike.

 

Qual será, então, o segredo da longevidade de Maugham e da sua obra? Talvez tenha sido a procura da liberdade, tarefa que se tornou uma obsessão. As suas tramas envolvem personagens presas em teias de “servidão”: a miséria nos bairros degradados em Liza, a Pecadora, as convenções sociais mesquinhas em Mrs Craddock, a compulsão de pintar em Um Gosto e Seis Vinténs, as regras puritanas em Cakes and Ale, o casamento em O Véu Pintado, o materialismo em O Fio da Navalha.

 

A sua sólida cultura, alicerçada num número infindável de leituras e nas múltiplas viagens que realizou, e a forma como encarava o sexo também terão sido determinantes. Como homossexual assumido, cultivava o convívio com jovens e falava desassombradamente das suas preferências. Dizia que sabia não ser bem parecido e que, portanto, esperava que as suas relações eróticas implicassem uma faceta interesseira por parte dos rapazes que seduzia. Em 1943, já com 69 anos, recebeu uma carta de um admirador que lhe dizia que a leitura de Servidão Humana o tinha marcado para sempre. David Posner tinha 17 anos e uma genuína admiração pelo velho escritor. Mantiveram uma relação física durante meses, e, embora Posner tivesse recusado dinheiro e outras dádivas, acabou por aceitar que Maugham lhe pagasse o curso em Harvard.

 

Polémicas à parte, Maugham continua a cativar leitores. O crítico Cyrill Connolly foi o que melhor definiu o impacto da sua obra: “Se tudo o mais perecesse, restaria sempre o mundo singular que se estende de Singapura às Marquesas, um universo exótico de varandas e mosquiteiros que é pertença exclusiva de um genial contador de histórias, e no qual entramos, como na Baker Street de Conan Doyle, com um sentimento de felicidade e pertença.”

 

Artigo sobre Somerset Maugham da autoria de Helena Vasconcelos, publicado no suplemento Ípsilon, do Público, no dia 24 de Dezembro.

publicado por Miguel Seara às 14:58

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